Cientistas mapearam 332 cânions submarinos gigantes ao redor da Antártida, cinco vezes mais do que se conhecia, alguns com mais de 4.000 metros de profundidade.
Durante décadas, mapas do fundo do oceano ao redor da Antártida mostravam uma paisagem relativamente simples: uma plataforma continental coberta por gelo, descendo gradualmente em direção às profundezas do Oceano Austral. Mas essa visão começou a mudar conforme novas tecnologias permitiram enxergar com mais precisão o relevo oculto sob a água e o gelo polar. Uma equipe internacional de pesquisadores da Universidade de Barcelona e do University College Cork, na Irlanda, reuniu dados batimétricos coletados ao longo de mais de 40 expedições oceanográficas realizadas nas últimas décadas. O objetivo era produzir o mapa mais detalhado já feito das margens submarinas do continente antártico.
O resultado revelou algo muito maior e mais complexo do que se imaginava: uma rede gigantesca de 332 cânions submarinos esculpidos no fundo do oceano ao redor da Antártida. Até então, a ciência conhecia apenas uma fração dessas estruturas. O novo levantamento indica que o número real de cânions na região é cerca de cinco vezes maior do que os registros anteriores sugeriam. Alguns desses vales submarinos descem mais de 4.000 metros em direção ao oceano profundo, tornando-se comparáveis em escala aos maiores cânions submarinos conhecidos no planeta.
O relevo invisível que esculpe as margens do continente mais isolado da Terra
Cânions submarinos são estruturas geológicas gigantescas que funcionam de maneira semelhante aos cânions terrestres. Eles são grandes vales escavados no fundo do mar, geralmente começando na borda da plataforma continental e descendo abruptamente até as profundezas oceânicas. Esses vales podem se estender por centenas de quilômetros, formando verdadeiros sistemas de drenagem submarina que conectam águas rasas às grandes bacias oceânicas.
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No caso da Antártida, muitos desses cânions permaneciam invisíveis porque a região apresenta condições extremamente difíceis para pesquisa científica. O continente está cercado por gelo marinho durante grande parte do ano, as tempestades são frequentes e as janelas de navegação para navios de pesquisa são curtas.

Como consequência, o fundo do mar ao redor da Antártida permaneceu relativamente pouco mapeado durante grande parte do século XX. A situação começou a mudar com o avanço de tecnologias como sonares multifeixe, sensores acústicos capazes de mapear o relevo submarino com grande precisão.
Esses equipamentos permitem que navios de pesquisa criem modelos tridimensionais detalhados do fundo oceânico enquanto navegam.
Um quebra-cabeça formado por décadas de expedições científicas
O novo mapa dos cânions antárticos não foi resultado de uma única expedição, mas da combinação de dados coletados ao longo de décadas. Os pesquisadores reuniram medições obtidas por diferentes programas internacionais de exploração oceânica, incluindo campanhas realizadas por instituições da Europa, dos Estados Unidos e da Austrália.
Ao integrar esses dados em um único modelo digital do relevo submarino, foi possível identificar padrões que antes passavam despercebidos. O resultado foi surpreendente: a equipe identificou 332 sistemas de cânions submarinos distribuídos ao longo das margens do continente antártico.
Muitos desses vales são enormes, comparáveis em escala a alguns dos maiores cânions submarinos do planeta.
Alguns cânions descem mais de 4 quilômetros em direção ao oceano profundo
Entre as descobertas mais impressionantes do estudo estão os cânions que se aprofundam por milhares de metros abaixo da superfície do mar. Alguns dos maiores chegam a mais de 4.000 metros de profundidade, descendo abruptamente da plataforma continental para o fundo das bacias oceânicas.
Para ter uma ideia da escala, essa profundidade é comparável à altura de algumas das maiores montanhas da Europa. Esses vales submarinos funcionam como verdadeiros corredores naturais que conectam águas rasas à imensidão do oceano profundo.
Eles permitem o transporte de grandes volumes de sedimentos, nutrientes e massas de água entre diferentes regiões do oceano.
Corredores naturais para correntes oceânicas profundas
Uma das razões pelas quais os cientistas se interessam tanto pelos cânions submarinos é o papel que eles desempenham na circulação oceânica. As estruturas podem canalizar correntes de água que se movem ao longo do fundo do mar, guiando o fluxo de massas de água entre diferentes regiões.
Na Antártida, esse processo é particularmente importante porque a região desempenha um papel fundamental na circulação global dos oceanos.
As águas frias e densas que se formam ao redor do continente antártico afundam e se espalham pelo oceano profundo, contribuindo para um sistema global de correntes conhecido como circulação termohalina. Os cânions submarinos podem atuar como canais naturais que ajudam a direcionar esse fluxo.
A ligação entre cânions submarinos e o derretimento do gelo antártico
Além de influenciar a circulação oceânica, os cânions submarinos também podem afetar a estabilidade das plataformas de gelo que cercam o continente.
Plataformas de gelo são grandes extensões de gelo flutuante que se projetam do continente sobre o oceano. Elas funcionam como uma espécie de barreira que desacelera o fluxo de gelo proveniente do interior da Antártida.

Quando correntes oceânicas relativamente quentes conseguem alcançar a base dessas plataformas, o gelo pode começar a derreter por baixo.
Os cânions submarinos podem facilitar esse processo ao permitir que águas profundas mais quentes se desloquem em direção à plataforma continental. Isso pode aumentar o derretimento do gelo em determinadas regiões.
Por que o fundo do oceano antártico ainda é pouco conhecido
Apesar de décadas de exploração científica, o fundo do oceano ao redor da Antártida continua sendo uma das regiões menos mapeadas do planeta. A combinação de gelo marinho, condições climáticas extremas e grandes distâncias torna a pesquisa na região extremamente desafiadora.
Navios de pesquisa precisam navegar por mares frequentemente cobertos por gelo flutuante, o que limita a área que pode ser explorada em cada expedição.
Além disso, muitas regiões da plataforma continental permanecem inacessíveis durante grande parte do ano. Como resultado, os cientistas estimam que uma parte significativa do fundo oceânico global ainda não foi mapeada com alta resolução.
Um mapa que muda a forma como os cientistas enxergam o oceano Austral
A descoberta da extensa rede de cânions submarinos ao redor da Antártida representa um avanço importante no entendimento da geografia oceânica da região. O novo mapa permite que os pesquisadores identifiquem padrões na distribuição dessas estruturas e analisem como elas se conectam com a circulação oceânica.
Essas informações são fundamentais para melhorar os modelos climáticos globais. Modelos climáticos dependem de simulações detalhadas do movimento das correntes oceânicas. Se o relevo submarino não for representado corretamente nesses modelos, as previsões sobre o comportamento do oceano podem se tornar menos precisas.
Ao mapear com mais detalhes o fundo do mar antártico, os cientistas conseguem refinar essas simulações.
Um continente cercado por uma rede de vales gigantes
O estudo revelou que os cânions submarinos não estão distribuídos aleatoriamente ao redor da Antártida. Eles tendem a se concentrar em regiões onde antigas geleiras esculpiram o fundo marinho durante períodos glaciais passados.
Durante as eras glaciais, grandes massas de gelo avançaram sobre a plataforma continental e esculpiram vales profundos que posteriormente foram inundados pelo mar.
Esses vales se transformaram nos cânions submarinos observados atualmente. A erosão causada pelo movimento do gelo e pelo fluxo de sedimentos ao longo de milhares de anos ajudou a ampliar essas estruturas.
Uma paisagem oculta que continua sendo explorada
Apesar da descoberta dos 332 cânions submarinos, os pesquisadores acreditam que ainda existem muitas estruturas desconhecidas ao redor da Antártida.
À medida que novas expedições oceanográficas utilizam tecnologias de mapeamento cada vez mais avançadas, é provável que novos detalhes do relevo submarino sejam revelados.
Cada nova descoberta ajuda a preencher lacunas no conhecimento científico sobre o funcionamento dos oceanos. A Antártida continua sendo uma das últimas grandes fronteiras da exploração científica na Terra. Sob seu gelo e ao redor de suas margens submarinas, escondem-se paisagens gigantescas que permanecem praticamente invisíveis para a maioria das pessoas.
Entre elas está essa vasta rede de cânions submarinos gigantescos, que ajudam a moldar a circulação dos oceanos e influenciam processos fundamentais do sistema climático do planeta.

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